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Entrevista Fábio com Barbosa, novo presidente da Febraban

Fabio BarbosaO Como o Sr. analisa o crescente movimento de consolidação entre as instituições bancos no País?

Fábio Barbosa: Fala-se muito no crescimento das consolidações, mas o que se vê é muita especulação e pouca transação de fato. Os grandes movimentos, na verdade, já estão feitos, e o que ocorre atualmente são movimentos menores, que não impactam o cenário competitivo, embora a concorrência entre os bancos venha ficando cada vez mais acirrada.

Este acirramento pode ter mais conseqüências para o cenário do setor?

Fábio Barbosa: O quadro, já bastante definido, é de dois grandes bancos estatais, três grandes bancos brasileiros e quatro grandes bancos estrangeiros. E neste grupo quase não se vê alteração. Certamente poderão acontecer operações envolvendo bancos menores, mais isto não irá alterar substancialmente a situação.

De que forma a nova gestão da Febraban poderá acelerar a eliminação de restrições de crédito para a pequena empresa, com mecanismos como a formação de fundos de aval, por exemplo?

Fábio Barbosa: A verdade é que já houve um fantástico crescimento, tanto no crédito para pessoa física quanto para empresas. Tivemos um ritmo de incremento de 19% no volume crédito para empresas, incluindo pequenas e grandes. Nosso trabalho, portanto, é mais de continuidade. Ou seja, o de fortalecer cada vez mais os instrumentos de garantia, transparência e controle do risco. Um exemplo é o cadastro positivo, que ajudará o setor a atuar de forma mais ágil também junto à pequena empresa.

Qual a sua avaliação sobre a situação política do País?

Fábio Barbosa: Este crescimento do crédito se deveu exatamente a uma série de arestas que foram aparadas em termos de fundamento, como a estabilidade política e econômica que o país vem atravessando. O prazo médio dos empréstimos no setor financeiro, que em 2002 era de 220, agora está em 300 dias. Esta ampliação de prazo só se dá mediante a estabilidade das regras do jogo e do arcabouço jurídico.

Na direção do ABN o Sr. apoiou fortemente políticas de responsabilidade sócio-ambiental. Pretende fazer disto uma bandeira?

Fábio Barbosa: Na verdade, esta questão de responsabilidade é um fenômeno de muitos bancos e não uma preocupação isolada do ABN. A própria Febraban vem trabalhando fortemente nisto, e nossa intenção e fortalecer iniciativas como a proposta de auto-regulação do setor. A Sociedade clama por transparência e nosso papel é ouvir e atender os anseios da sociedade.

O setor tem algumas palavras de ordem que parecem nunca sair do plano teórico, como a redução do spread bancário e o cadastro positivo...

Fábio Barbosa: Já tivemos redução importante no spread. Segundo dados do Banco Central, o spread médio que era de 54% no caso de indivíduos em 2002 está hoje em 39%. Esta queda significativa se deve a duas vertentes. Primeiro, precisamos ganhar algumas  antigas batalhas do setor, como a redução do compulsório e da carga fiscal, que oneram a atividade bancária e acabam refletidos em um spread mais elevado. Sobre o cadastro positivo, ele será muito importante para termos mais transparência e podermos precificar melhor o custo do crédito.

Mas de quer forma o spread pode cair mais?

Fábio Barbosa: A continuidade da política econômica deve dar uma redução, não sabemos exatamente a que ritmo, da taxa de juros nominal. E a queda dos juros levará também a uma redução mais ampla do spread. E a esta tendência se soma a incorporação positiva de novos setores da sociedade no sistema de crédito, sejam estes pessoas físicas ou jurídicas.

Seu antecessor, Márcio Cypriano, mencionou que já se está trabalhando com a expectativa de um dólar na casa de R$ 1,95 para o fim do ano. O Sr. defenderia uma ação do BC para reverter esta tendência?

Fábio Barbosa: Considero muito positivo que esta valorização do real se dê por fatores como o bom saldo da balança comercial, a queda do risco país e a valorização do preço das commodities. A falta desta oferta abundante do dólar, aliás, foi o que no passado nos impactou de forma bastante danosa. O Banco Central tem feito certas intervenções, mas não há espaço para uma interferência radical. A entrada de capitais no País é reflexo direto da redução do risco, associado ao crescimento econômico e à estabilidade do jogo. Não há fórmulas simples para mudar isto.

Há uma forte expectativa de que o Brasil conquiste o Investment Grade, o Sr. acredita nisto a curto prazo? E qual seria o impacto real?

Fábio Barbosa: A vantagem imediata de sair do risco para a indicação de investimento é que todos aqueles fundos de investimento que só podem investir em países com o “investment grade” começaram a enxergar o Brasil como uma alternativa concreta. Isto significa o acesso a importantes bolsões de poupança, que hoje não podem investir aqui. Mas é claro que o mercado se antecipa a tudo isto, e já estamos assistindo a um fluxo altamente positivo de capitais chegando no Brasil. Sem dúvida, caminhamos para o grau de investimento, mas isto pode acontecer este ano, ou no meio do ano que vem, desde que as condições atuais se mantenham. Nosso maior trunfo, entretanto está no aumento da previsibilidade do país, o que, de modo geral, favorece o investimento de longo prazo.

A Febraban irá se engajar na luta pela independência do BC?

Fábio Barbosa: É importante que haja, por parte do BC, o espaço necessário para que possa operacionalizar sua política monetária e econômica. E isso tem acontecido. A questão da formalização, da institucionalização, seria uma garantia maior para todo o mercado. Mas há que se dar crédito ao BC, que tem tido todo o espaço para cumprir as metas definidas pelo conselho monetário nacional, em conjunto com o governo e a orientação política que ele tem dado. É fato que institucionalização evitaria surpresas futuras e seria bastante positiva. Mas é um assunto que está sendo tratado pelo governo e cabe a nós acompanhar de perto.

De que modo o Sr. avalia a nova conta-salário e a liberdade que ela traz para que o assalariado escolha o banco de sua preferência?

Fábio Barbosa: Vejo que este assunto está caminhando na direção que a Febraban sempre defendeu, já que a entidade é favor da concorrência. Ficará a critério de cada banco definir os melhores mecanismos para atrair clientes, seja via conveniências, facilidades de empréstimos, menores tarifas, relacionamento com o gerente... Vou me permitir citar a propaganda do Bradesco que diz que há 120 maneiras de agradar o cliente.

A Febraban irá propor a auto-regulamentação do setor?

Fábio Barbosa: Esta é uma iniciativa já em curso. E é apenas a formalização de algo que já é feito pelos bancos. A diferença agora é justamente a institucionalização, através da Entidade do setor, para que possamos nos apresentar de forma cada vez mais clara e transparente para sociedade. Alguns segmentos como o representado pela Anbid, já estão atuando nesta linha e servem como modelos para enriquecer nossos estudos a respeito do assunto.

Nos últimos anos houve uma considerável ampliação do crédito, principalmente pela inclusão bancária. Onde estão as novas oportunidades para este tipo de oferta?

Fábio Barbosa: Enquanto o volume de crédito representa 34% do PIB, apenas 3% deste total é representado pelo crédito imobiliário. Notamos que em outros países esta proporção é de 50% até 60% do total, o que mostra claramente que temos muito para crescer em crédito imobiliário. Segundo dados que eu próprio compilei, o crescimento de 2004 para 2007 vai ser de 50% ao ano. Um crescimento muito expressivo se considerarmos que de 2000 para 2004 houve uma redução de 4% ao ano.

De que forma a Febraban pretende exercer sua liderança, em nome do setor bancário, no conjunto da economia?

Fábio Barbosa: Vamos trabalhar, neste ano para a criação de um conselho consultivo que já estava previsto. Ele reunirá lideranças da indústria, agricultura, comércio, etc, para vermos quais são os entraves para cada setor e as soluções possíveis. Isto nos permitirá buscar um trabalho de convergência com governo, entendendo que esta convergência interessa a todos. A idéia é criar diversos fóruns de debates, de maneira organizada, para estabelecer medidas que seriam levadas para a discussão junto ao governo.

O Sr. poderia mencionar alguns temas tidos como prioridade?

Fábio Barbosa: Um deles é o Fórum da Previdência, outro é o Fórum que irá discutir o modelo trabalhista e a reforma sindical. Repare que estas discussões são importantíssimas até para que o Brasil conquiste o grau de investimento. Achamos que a discussão sobre reforma trabalhista precisa perder este estigma de ser um risco para a perda de direitos para o trabalhador. Pelo contrário, é preciso demonstrar claramente que a flexibilização pode ser uma grande conquista para as categorias profissionais e para o país como um todo.

Como o Sr. avalia sua chegada à direção da Febraban, sendo o primeiro presidente da entidade egresso de um banco global?

Fábio Barbosa: Vejo isso como uma tendência natural. Todos os problemas que discutimos na Entidade são do setor financeiro como um todo, independentemente de serem eles de capital estatal, nacional ou estrangeiro. Não me ocorreu nenhum assunto que seja particularmente relevante para os bancos estrangeiros. O que eu acho positivo é que a economia brasileira está se internacionalizando. Tem multinacionais brasileiras. O setor financeiro vai ter que acompanhar essa internacionalização da economia brasileira.