“REVISÃO DO MODELO AINDA ESTÁ EM CURSO”

José Luiz Cerqueira CésarEntrevista com José Luiz Cerqueira César

Um dos pioneiros da automação bancária no Brasil, José Luiz Cerqueira César tem sua carreira associada a fatos como a formulação do modelo de operação digital da BM&F, tendo participado ativamente também da consolidação da Rede 24 horas. Como vice-presidente de TI e Logística do Banco do Brasil, Cerqueira César espalhou 1200 telecentros pelo País e reposicionou rapidamente o banco, de uma situação de relativo abandono, para uma das posições de destaque em termos de redes de serviços e de canais no setor.

Atualmente, Cerqueira está envolvido com os últimos arranjos para o lançamento da sua Rede1Minuto. Nesta entrevista exclusiva, o executivo comenta sobre as novas condições de competição no setor bancário brasileiro.


Relatório Bancário - O Sr. tem enfatizado, em várias oportunidades, que o modelo de competição dos bancos ainda não concluiu o processo de revisão, que tem como pano de fundo a grande expansão da base de correntistas. Poderia falar um pouco a respeito?

Cerqueira César – A grande expansão da base de clientes é apenas um aspecto do fenômeno, e deriva de vários movimentos e mudanças a que a indústria bancária e financeira foi submetida nos últimos 20 anos.

Podemos citar, entre estas mudanças, a absorção das funções de pagamento, substituindo as antigas coletorias como balcão de atendimento, e a introdução do modelo de bancos múltiplos. Também entram aí a continentalização dos principais bancos brasileiros e o acelerado processo de automação de toda a indústria bancária do País, o que a ajudou a se destacar no mercado internacional.

Temos ainda a integração eletrônica do Sistema de Pagamentos Brasileiro – SPB; a implantação de correspondentes bancários, a consolidação das Redes de Auto-atendimento, bem como das Redes de TEF e a alta capacidade de adaptação que os bancos adquiriram com as sucessivas crises econômicas.

O cliente prefere contrair empréstimo numa loja, onde há o agradável apelo do consumo

RB – E quanto ao papel pró-ativo do Estado, não houve mudança impactante?

Cerqueira - Houve. Ao lado de tudo isto, os bancos precisaram se mobilizar para acompanhar as novas medidas do governo, como a criação da conta simplificada, as novas políticas de microcrédito, a ampliação dos créditos do Pronaf e o forte impacto do Bolsa Família, medidas estas que induziram e aceleraram o processo de bancarização.

Podemos observar que os bancos descobriram nestes movimentos um novo filão de negócios, capaz de substituir algumas fontes de receita que já iam se esgotando, como é o caso dos spreads altos e das receitas inflacionárias, apesar da forte resistência inicial contra estas ações do Estado.

Houve, inclusive, um momento em que a corrida das instituições para a base da pirâmide ensaiou ser uma espécie de corrida do ouro.  Sendo que com o fantástico sucesso do crédito consignado e com a descoberta de um vasto marketing baseado em microcrédito, esta corrida foi ficando cada vez mais frenética...

Os correspondentes precisam sair do lugar comum do recebimento de contas

RB - O Sr. Diria que ela está próxima de seu esgotamento?

Cerqueira - Acredito que este fenômeno tende a adquirir feições cada vez mais surpreendentes. Se até pouco tempo, a briga era para conquistar correntistas nas camadas de baixa renda, agora os bancos já estão olhando para o flanco dos não-correntistas e os trabalhadores da economia informal. Embora não sejam cativos e relacionados a um cadastro, estas grandes massas de usuários de serviços bancários movimentam um montante financeiro enorme e representam um segmento-alvo dos mais interessantes para o novo marketing financeiro. Mas, em linhas gerais, a disputa pela baixa renda tende a se acentuar e a exigir cada vez mais tecnologia, agilidade e ousadia por parte dos bancos.

RB - E é de se supor que esta disputa contamine também o relacionamento dos bancos com as redes de varejo...

Cerqueira - Exato. Haverá muita disputa em função destas parcerias. As relações banco/varejo vão se tornando cada vez mais complexas e mais vitais para ambas as partes. Aliás, esta nova modalidade de canal, representada pelo correspondente bancário, obriga todos os bancos a repensar completamente a sua política de canais.

 

Já se descobriu, por exemplo, que é muito mais natural para as pessoas contraírem empréstimo numa loja (onde a situação de comprar equipara-se ao prazer de consumir e à sensação de bem-estar) do que em um balcão de agência. Há poucos lugares menos agradáveis para o consumidor do que uma agência bancária.

Note que os bancos demoraram muito para perceber esta discrepância, que é a de investir em enormes redes de agência em que as pessoas só vão por serem estritamente obrigadas. Contrariamente a isto, até um pequeno comerciante concebe o seu estabelecimento como um lugar cheio de iscas para atingir o desejo do cliente.

Não existe local menos interessante para se visitar do que uma agência bancária

RB – O Sr. tem dito também que a diversificação dos serviços será essencial na concorrência, poderia explicar este ponto?

Cerqueira – Sem dúvida, este cenário irá impor a necessidade de uma mudança profunda nos instrumentos de fidelização dos clientes.
É de se esperar, aliás, que os próprios clientes venham a exigir que os bancos - ou as recentes formas de organização da economia digital - solucionem as novas dificuldades relativas à qualidade de vida do terceiro milênio (saúde, segurança pessoal e familiar, situação econômica, educação e ambiente). E que tais soluções funcionem como uma moeda de troca, pois somente as ofertas tradicionais de produtos e taxas não serão mais suficientes para garantir uma boa estratégia de fidelização.

RB - E o que mais precisará ser atendido?

Cerqueira - Além das questões associadas com a qualidade de vida, se faz necessário atender os demais interesses pessoais e ansiedades dos clientes em seu cotidiano. Principalmente nos grandes centros urbanos. Isto levará os bancos (se desejarem, de fato, manter a fidelidade dos seus clientes) a buscar associações em  diferentes estruturas econômicas digitais, multifuncionais e de multi-propósitos. Esta será uma condição para se garantir presença e participação dos bancos nos seus alvos, e implicará em uma mudança radical no atual paradigma de segmentação de clientes e mercado adotada pelos bancos.

Em outras palavras, o desenho dos produtos e serviços deverá incorporar novas dimensões como trabalho, lazer e modo de vida das pessoas, das organizações e da sociedade.

RB – E quais os obstáculos à frente destas demandas?

Cerqueira – Há ainda questões regulatórias com pendências já visivelmente próximas de seu momento de dissolução, como é o caso da questão da truncagem de cheques ou a do cadastro positivo. Estes dois exemplos necessitam ser resolvidos de forma breve.

A barreira cultural, porém, que era das mais difíceis, já encontra-se em franca superação. Outra pendência já bem endereçada é a da universalização do atendimento bancário. Os mais de 100 milhões de celulares – aliados a uma capacidade já bastante testada por toda a população no uso de interfaces digitais (como o próprio telefone móvel ou a urna eletrônica) serão, sem dúvida, mobilizados na pulverização do canal. O próprio modelo de correspondente necessitará de aperfeiçoamento para suportar as novas famílias de produtos e serviços bancários.

Mas o que se vê no cenário é muito mais facilidade de afluxo desta nova realidade do que obstáculos concretos.

RB – E quanto à Rede1Minuto, a sua nova empresa, onde entra neste contexto?

Cerqueira – A Rede1Minuto é um tipo de empreendimento baseado na articulação de múltiplas soluções e ofertas pré-existentes, visando se adiantar às demandas do setor bancário. Ainda estamos ao final de uma fase de gestação que, muito em breve, irá revelar um portfólio voltado para endereçar a tecnologia dos bancos em função de alguns dos principais temas desta nossa entrevista.