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“É preciso alongar os prazos de retorno se quisermos ser sustentáveis.
 
Álvaro Musa é um executivo com mais de 30 anos de experiência no mercado de serviços financeiros ao consumidor. Foi Presidente da Credicard e do Banco Fininvest, Diretor do Citibank.  Palestrante e autor de diversos artigos, ele é  sócio-diretor da Partner Conhecimento, criadora e realizadora do congresso C4.  Nesta entrevista, Álvaro fala sobre a educação financeira do brasileiro, comenta os riscos de estouro da bolha de crédito e faz projeções para o futuro do negócio de cartões.

O que muda no negócio do cartão de crédito após o IPO realizado pelas bandeiras?

As bandeiras agora não respondem mais somente aos bancos, mas também a seus  investidores, a seus acionistas. Ninguém sabe muito bem quais mudanças podem advir disso, mas as expectativas são muito boas. Afinal, as duas principais bandeiras captaram no mercado dezenas de milhões de dólares, e ninguém investe tanto em um negócio sem perspectivas de crescimento e resultado. Agora, em minha opinião, esses investidores mais cedo ou mais tarde exigirão novos produtos, atualização tecnológica mais rápida, ampliação do conceito para outros tipos de transações, etc.

Com essa injeção, é possível  imaginar mudanças também no sistema de operação, em novas tecnologias...

O incremento na tecnologia é um processo natural. Acredito que dentro de muito pouco tempo a maior parte dos pagamentos serão efetuados de maneira diferente do que são hoje. Mas não vejo o celular substituindo os cartões, como alguns pensam. Vejo mais uma aliança entre as teles e os bancos, uma convergência também em negócios e não só em tecnologia.O que debateremos no congresso é como vai evoluir essa tecnologia. Não existe hoje qualquer razão, por exemplo, para que você não possa usar o chip que está no celular para fazer pagamentos. Ou o chip que está no cartão para fazer chamadas...

O número de cartões de crédito no Brasil ultrapassou a barreira dos 100 milhões de unidades. Isso representa um aumento de praticamente 100% em relação a quatro anos atrás. Como lidar com essa demanda de relacionamento entre empresas e usuários?

Além destes, temos de somar os cartões emitidos pelas grandes lojas, que são mais 150 milhões; pelas contas correntes, que são mais 112 milhões, etc. Se contarmos cada um desses relacionamentos, chegamos a um bilhão de contatos empresa/ consumidor, somente no Brasil. Isso está virando um gargalo. As empresas não conseguem suprir a mão-de-obra para atender um cliente cada vez mais qualificado e exigente.
 
O negócio de cartão de crédito está inchado? É uma bolha que pode vir a estourar?

É bom que as pessoas estejam preocupadas, exatamente para evitar o abuso e o conseqüente  estouro. Mas não creio que haja uma bolha, ou que ela venha a estourar. As pessoas no Brasil estão aprendendo cada vez mais a pegar crédito,  de forma equilibrada. E isso é um bom sinal. Pessoalmente, não acho que passemos por um risco grande. Os consumidores e os bancos no Brasil estão bastante atentos para isso. E é justamente o que queremos no congresso: ouvir os bancos, os serviços de proteção ao crédito, as empresas internacionais de modelagem de crédito, o Banco Mundial, o que eles pensam disso. Nestes últimos 12 meses, o cenário mudou: a crise do subprime nos EUA abalou toda a estrutura do setor financeiro e fez ressurgir a inflação. Então, é 
preciso que os executivos do setor discutam isso. O congresso é essa oportunidade.

Você mencionou que a inadimplência no Brasil vem diminuindo. Mas 
ainda é maior do que em outros mercados. Por quais motivos?


A inadimplência no Brasil é maior por três razões principais. Primeira: o consumidor brasileiro ficou quase 20 anos, durante a época da hiperinflação, sem condição de tomar crédito. As pessoas literalmente desaprenderam. Segunda: os bancos também desaprenderam a conceder crédito. Durante muito tempo, os bancos viveram de emprestar dinheiro ao governo. Quando o Real se estabilizou, a inflação foi controlada, os bancos voltaram a fazer crédito, que é seu papel fundamental. Mas perderam a experiência. Hoje, já temos aí 15 anos de volta dos créditos, o que tem diminuído o problema. Terceira razão: falta algo chamado ‘cadastro positivo’ no Brasil, um banco de dados de onde constem informações sobre quem é disciplinado e quem não é. Uma análise de perfil, mesmo, que existe praticamente em todo o mundo. No Brasil, o banco que concede crédito tem de agir meio no escuro.

Você
falou em educação responsável e sustentabilidade. Como é a 
relação do mundo financeiro com conceitos como responsabilidade social?

Os bancos têm uma imagem perante o público meio que demonizada. Mas na verdade eles têm um papel importante, que é o de fazer circular o dinheiro, como o coração de um ser humano faz circular o sangue. Contudo, é preciso saber o que fazer com esse dinheiro, onde investir. Ainda que os resultados sejam de longo prazo, investir em educação garante um desenvolvimento perene lá na frente. Mas, para que isso ocorra, é preciso que haja uma mudança de paradigma em relação a retorno. Tem de se parar de pensar só no próximo trimestre e entender que as metas, em termos de desenvolvimento sustentável, são mais longínquas. Sustentabilidade é, por definição, negócio a longo prazo. Então não se pode pensar em retorno a curto prazo caso se pretenda ser sustentável.