RELATÓRIO BANCÁRIO: A Internet e os celulares vão rivalizar fortemente com os terminais da Diebold. Isto não o preocupa?
JOÃO ABUD: Eu me preocuparei realmente no dia em que o meio físico ‘dinheiro’ for substituído por alguma outra coisa. Sacar dinheiro para pagar um táxi, cinema, lanche, etc ainda será por muito tempo uma necessidade concreta. Já houve várias tentativas fracassadas de substituir o papel moeda.
Coisas como smart card e carteira eletrônica, que tiveram vários pilotos feitos na Europa e Estados Unidos. Mas a população quer ter disponibilidade, quer ter dinheiro no bolso. E enquanto ele não for substituído por algo eletrônico, acredito que não tenha nenhuma ameaça séria contra o nosso negócio.
RB: Hoje já se fala em excesso de oferta de terminais de auto-atendimento, com muitas máquinas sendo subutilizadas. O que garantirá o avanço da demanda
JA: O maior ‘boom’ de auto-atendimento se deu de 96 a 99, quando, tanto os bancos privados, quanto o BB e a Caixa, aceleraram seus projetos. Mas as implementações continuam crescendo por força de argumentos fortes.
Primeiro, a transação de auto-atendimento é bem mais barata para os bancos do que a transação na boca do caixa, um terço do preço. O País tem hoje por volta de 150 mil equipamentos, sendo cerca de 80 a 85 mil com a marca Diebold. Note que em 2000 o total era de 100 mil ATMs. Significa que, em cinco anos, o parque cresceu 50%, estimulado pela redução de custos.
O segundo drive de auto-atendimento é o aumento da bancarização. Até alguns anos atrás, apenas 40% da população economicamente ativa tinha conta em banco. Hoje, existe uma campanha grande dos correspondentes bancários para essa população de baixa renda se bancarizar, ter conta em banco e sacar com cartão. E temos ainda a oferta cada vez maior de benefícios sociais via ATM. O Bolsa Família, por exemplo, é pago com cartão. O Brasil é o único país do mundo onde uma pessoa sem conta em banco vai a uma ATM sacar dinheiro.
Finalmente, temos que considerar as vendas para reposição. Um equipamento ATM tem vida útil próxima a sete anos. Considerando que o ‘boom’ foi em 1996, muitos equipamentos estão próximos do fim do ciclo.
“A população quer disponibilidade, quer ter dinheiro no bolso” |
RB: Então, teremos grande renovação do parque em breve...
JA: Sim, o contador de dinheiro das máquinas, por exemplo, é bastante sujeito a desgaste, por ser em grande parte mecânico e não só eletrônico. Ainda em 2006, ou logo em 2007, já está na hora de fazer uma grande reposição. Isso vai fazer crescer o negócio de auto-atendimento no Brasil.
RB: E os ATMs móveis, vão deslanchar?
JA: Muitos bancos já fizeram experiências com ATMs móveis. Durante o período de férias, nas praias brasileiras, é comum haver furgões com ATMs móveis. Não há dificuldade técnica nenhuma. Mas só é interessante para o uso eventual, em um jogo de futebol ou neste exemplo das praias. O ATM móvel tem mais a ver com marketing que com a venda de transações de fato. Não acredito que vá pegar em grandes volumes.
RB: Há algum tempo, muito se fala em compartilhamento de ATM. Se esta idéia vingar, pode haver uma redução do mercado de ATMs em termos de volume?
JA: Não existe dificuldade técnica nenhuma para o compartilhamento; a questão é puramente de marketing. Os grandes bancos querem ter uma rede própria por questão de imagem, mas creio que acabarão aceitando o compartilhamento algum dia. Seja como for, isto não implica em redução do nosso mercado.
O compartilhamento exige, por exemplo, um software mais complexo, com as aplicações dos diversos bancos. Então, as ATMs antigas terão que ser trocadas ou receber um upgrade, o que sempre vai gerar muito serviço. Quem vai fazer a manutenção? Os bancos vão designar o fornecedor para cuidar e não um determinado banco. Para o nosso negócio de outsourcing eu vejo uma oportunidade grande.
“O Brasil é o único país do mundo onde uma pessoa sem conta em banco vai a uma ATM sacar dinheiro” |
RB: Como se deu a sua nomeação para Vice-Presidente da Divisão da América Latina da Diebold-Procomp e o que diferencia a operação brasileira na comparação com 88 países onde a empresa atua?
JA:A nossa linha de produtos é a maior do mundo e somos líderes incontestes em nossas áreas foco, que são auto-atendimento bancário e segurança eletrônica. |
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Além da ampla participação no segmento de ATMs, somos muito fortes em automação de agências, balcão de caixas e terminais lotéricos.
Nossa capacidade superior fica patente, por exemplo, pelo fato de termos sido responsáveis pela substituição de 25 mil terminais lotéricos no País.
RB: Podemos dizer que a força da Diebold está mais concentrada em hardware ou em serviço?
JA: Este é mais um fator que nos diferencia. Estamos conseguindo uma grande mudança no mix de faturamento. O que antes era 60% hardware e 40% serviço, hoje é justamente o contrário: 40% hardware e 60% serviço.
“Não existe dificuldade técnica para o compartilhamento, a questão é puramente de marketing. Os grandes bancos querem ter uma rede própria por questão de imagem”
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RB: Como se dá esta transferência de receita?
JA: Principalmente através do outsourcing de auto-atendimento, que nós começamos no Brasil há seis anos e que vem crescendo de forma ininterrupta. Através desta nossa oferta, assumimos toda a operação das redes de caixas eletrônicos dos bancos e o fornecimento de hardware passa a ser apenas uma parte do nosso negócio.
O grande sucesso desta operação despertou na Diebold o interesse de replicar o modelo brasileiro para outras partes do mundo. Faz parte da minha missão implementar esta nova oferta em toda a América Latina, incluindo o México.
RB: O Sr. enxerga sinergias concretas entre a operação local e a da região?
JA: É claro que procuramos a sinergia, mas não são todas as coisas brasileiras que fazem sentido lá fora. Sem dúvida, o outsourcing de operação das redes em nome dos bancos é uma tendência quase que global e vamos iniciar rapidamente os testes na AL com o ferramental desenvolvido aqui. O mesmo vale para itens como automação de agência, balcão de caixa e loterias.
Temos também grandes chances de exportar o modelo de urnas eleitorais e acreditamos muito no modelo de correspondentes bancários, que é um conceito vitorioso desenvolvido no Brasil. Já temos vendas de soluções feitas para o Peru, Colômbia, Venezuela e Equador.
Outro ponto que nos favorece na região é a industrialização própria no Brasil. Temos uma fábrica ágil, moderna e de custo final altamente competitivo. Os países da AL ainda importam ATMs e caixas eletrônicos dos Estados Unidos, mas nossas chances de conquistar uma parcela grande deste mercado é concreta.
RB: Quais as semelhanças e dessemelhanças entre os mercados destes países?
JA: O mercado brasileiro só pode ser comparado com o México, mas mesmo assim se trata de um mercado bem menor. O nosso sistema bancário, por tradição, é altamente automatizado e concentrado em bancos muito grandes. Os 10 maiores bancos representam mais de 80% do mercado com um número de transações astronômico.
Assim, entre os países da AL, só o México se aproxima de nós, por também contar com grandes bancos como o Citibank, HSBC e Santander.
RB: De que forma estas disparidades incidem sobre a receita da Diebold?
JA: Para se ter uma idéia, a Diebold Brasil fatura 320 milhões de dólares e os outros países da AL somados, incluindo México, tem faturamento por volta de 130 milhões de dólares. O Brasil é três vezes maior que os outros países juntos. Uma das minhas missões para os próximos cinco ou seis anos é justamente fazer o faturamento dos outros países da região ser comparável com o do Brasil, perto de 300 milhões de dólares. Esta é uma meta pessoal, além de ser uma expectativa da empresa.
RB: Quais são seus maiores desafios e como o senhor pretende encaminhá-los?
JA: O maior desafio é cultural. O Brasil é o único país da AL que não fala Espanhol. Temos uma cultura mais miscigenada, com influência européia, muita imigração, e países como Argentina e Chile são culturalmente diferentes. Tudo isto exige de nós muito mais esforço e iniciativa para sermos bem aceitos.
Por outro lado, nossas vantagens competitivas são enormes. No Brasil, temos 65% do market share de ATMs. Nos outros países não temos uma grande participação no mercado, mas temos um fantástico terreno inexplorado. As máquinas importadas dos EUA não têm a engenharia que temos aqui, o que deixa a Diebold em relativa desvantagem no que toca aos preços. Mas com o custo relativo melhor da fábrica brasileira, esta situação muda a nosso favor. |