Caso Cisco Emudece Setor de Redes
Depois das prisões da operação Persona, realizada pela Polícia Federal nesta semana e que levou à detenção de mais de 40 pessoas, entre funcionários da Cisco e de parceiros, como pessoas da distribuidora Mude, o mercado vive uma movimentação na área de networking e um estranho silêncio sobre o acontecido.
Segundo as informações divulgadas pela PF, mais de 30 companhias brasileiras e estrangeiras estariam envolvidas no esquema e que, com a cooperação de auditores fiscais, subfaturava os produtos usando empresas de laranjas em paraísos fiscais, sonegando impostos e que, segundo estimativa da Receita Federal, poderiam perfazer um conjunto de impostos sonegados mais multas da ordem de R$ 1,5 bilhão.
O esquema, dizem as investigações, usaria a importação de produtos eletrônicos e de telecomunicação de forma simulada, com o fim de ocultar os verdadeiros importadores e exportadores e obter redução de tributos.
As apreensões feitas envolviam ainda US$ 10 milhões em equipamentos. A assessoria de imprensa da Cisco no Brasil apenas se limitou a distribuir um comunicado oficial de teor morno, dizendo que a Cisco ‘busca saber exatamente o que aconteceu’ e que vai cooperar com as investigações das autoridades. A ausência de novos comentários também foi a tônica do resto do mercado.
Divisão - Uma das chaves do esquema, segundo técnicos da Receita Federal, estava na separação de software e hardware embutidos nos equipamentos de rede da empresa. Como há uma tributação diferente para hardware e software, os distribuidores elevavam o valor dos aplicativos (isentos na importação) e subfaturavam o preço dos equipamentos. Havia ainda o expediente da interposição fraudulenta, que ocultava os nomes das empresas que importavam os equipamentos. Segundo a Receita, com isso os equipamentos chegavam ao País sem recolher o ICMS na importação dos mesmos e gerando um ICMS menor na hora da revenda. Com isso, os produtos da marca chegariam ao mercado brasileiro com preços próximos aos praticados nos EUA.
Apesar do impacto direto sobre as operações e os respingos sobre a marca da Cisco no Brasil, a empresa ainda chegou a afirmar em nota distribuída à imprensa na última terça-feira, dia 16, que os negócios envolvendo os produtos da companhia no Brasil seguiam normalmente por meio de parceiros como revendas e integradores. A empresa também se defendeu afirmando que não pratica venda direta neste mercado, cuidando apenas de atividades como marketing, promoção de vendas e suporte técnico.
Mesmo assim, fontes no mercado afirmam que algumas destas empresas já estariam iniciando consultas junto a outros fornecedores de equipamentos de networking, temendo perder contratos já em andamento ou com receio de que uma vistoria mais rigorosa por parte da Receita Federal sobre os produtos da Cisco possam encarece-los na ponta ou então atrasar sua entrega no mercado local.
Mas mesmo diante da perspectiva de novos negócios com a crise que se abateu sobre a Cisco, todo o mercado evita comentar o assunto. A reportagem do Relatório Bancário consultou diversas empresas da área de networking, integradores, consultorias e distribuidores e nenhuma delas quis pronunciar-se sobre o assunto.
Uma outra fonte do mercado de tecnologia, que pede para não ser identificada, afirmou que o problema das importações tortuosas e o desmembramento da parte de software e equipamentos, além de esquemas de subfaturamento podem não ser exclusividade da Cisco.
A denúncia do esquema teria partido de um ex-funcionário da Cisco Brasil. Quatro executivos supostamente envolvidos no esquema e que estavam listados nos mandatos de busca e apreensão da Polícia Federal ainda se encontravam foragidos nesta semana. Em que pesem as detenções, nenhum dos executivos presos pela Operação Persona foi formalmente acusado de participar de irregularidades até o momento. Segundo dados da Cisco, a América Latina é parte da área de Mercados Emergentes, que respondem por cerca de 10% das vendas da empresa. Segundo dados de seu último ano fiscal, a Cisco faturou US$ 35 bilhões.
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