Relatório Bancário – Há quem diga que a internacionalização é o único caminho para os bancos nacionais. Como o Sr. avalia este ponto?
Cypriano - No Bradesco fazemos um planejamento de 10 anos. No curto prazo não temos nenhum interesse em sair do Brasil e ir para outros países fazer varejo. De médio a longo prazos, começamos a pensar nessa possibilidade. No futuro não descartamos, até porque o mercado vai começar a ficar mais estreito.
Mas temos ainda um bom espaço a percorrer. São mais de 40 milhões de pessoas que podem vir a ser clientes de bancos aqui mesmo, no Brasil. Quando percebermos que o crescimento no Brasil não tiver mais espaço, aí sim partiremos para outros países. Buscaremos mercados importantes como África, Índia, países com sistemas financeiros aos quais possamos prestar bons serviços e estabelecer uma relação ganha-ganha. Mas ainda é algo muito incipiente.
Imagino uma situação assim num horizonte de 10 anos, e tenho ainda mais três à frente do Bradesco. De modo que esta mudança ficará para os meus sucessores.
RB- Os bancos temem a concorrência com as redes de varejo que oferecem serviços financeiros?
Cypriano - As redes de lojas como C&A e Wal-Mart, vêem os serviços financeiros apenas como um negócio pequeno, algo que vai complementar um pouco a atuação dessas redes. Não vejo porque encarar isso como uma grande concorrência para o sistema financeiro. A prestação de serviços oferecida por eles será limitada, focada no financiamento de suas vendas mesmo.
RB - Como o sr. vê a predominância de bancos estrangeiros em países como o México, ao contrário do que ocorre no Brasil?
Cypriano - Esse fenômeno acontece também em outros países como a Argentina, que tem 80% do mercado na mão de bancos estrangeiros. Não vejo problema, a não ser no caso do país passar por alguma dificuldade. Sabemos que o capital é volátil. No Brasil, quando tivemos crises, vários bancos encerraram suas operações ou reduziram drasticamente, e quem segurou as movimentações financeiras das empresas foram os bancos nacionais. Numa economia normal, não vejo problema numa predominância de bancos estrangeiros.
RB - O recente anúncio do seu sucessor na Febraban ocorreu de forma diferente dos demais. Primeiro, se deu antes de dezembro, e também não deu seqüência ao tradicional rodízio de representantes de bancos brasileiros...
Cypriano - De fato, a entidade já havia se decidido pelo presidente do ABN, Fábio Barbosa, sem dúvida nenhuma um nome repleto de credenciais, e resolvermos antecipar a data do anúncio, uma vez que certa revista semanal conseguiu se antecipar ao tema e criou-se um clima de especulação. Quanto ao tradicional rodízio de bancos nacionais indicando o presidente da Febraban, achamos que era hora de mudar. Até porque, inúmeros bancos nesta condição foram absorvidos por outros, como Bamerindus, Noroeste etc e houve de fato mudanças na representação do setor. A abertura da liderança para os estrangeiros é uma oportunidade alargarmos os horizontes da Entidade.
RB - É possível uma brevíssima avaliação de sua gestão na Febraban?
Cypriano - No início da gestão estabelecemos algumas metas e objetivos, que agora temos a grata surpresa de constatar que foram atingidos. Entre eles estão a mudança da sede do antigo prédio no Centro de São Paulo para a Av. Faria Lima (Região nobre na Zona Oeste paulistana), para onde iremos em breve. Mudamos os regimes das comissões de trabalho e otimizamos a estrutura de retaguarda o que nos torna mais ágeis e mais participantes do dia a dia do setor. |
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No que toca à influência externa da Febraban, era o meu objetivo conseguir o compartilhamento entre bancos, mas isso ainda não atingimos totalmente. Conseguimos em parte. Fizemos o compartimento da Caixa com o BB. E também do Banco 24 Horas. O Bradesco entrou para a rede e com isso trouxe o Itaú também. Embora ainda haja muito por fazer, não resta dúvidas de que conquistamos algumas sinergias importantes e que podem servir de estímulo para novas adesões.
RB – Existe alguma luz fim do túnel para a situação do crédito no País ?
Cypriano - Há dois anos o crédito estava em 24 a 25% do PIB, e hoje está em 33%. Ainda é pouco. Em países como Chile ou Japão está em 150%. Mas já temos um movimento de melhora, principalmente pelo nível de bancarização do sistema financeiro nos últimos tempos.
Essa bancarização traz aos bancos um acréscimo nas receitas de serviços sem a necessidade de aumento de tarifas, ampliando a base de contribuintes e agregando mais ao setor financeiro. A redução das taxas de juros é importante para os bancos porque conseguimos aumentar as operações de créditos com segurança, ter uma inadimplência menor, pois os juros são pagáveis. As pessoas terão mais projetos e os bancos vão fomentar o crescimento da indústria e do comércio oferecendo crédito.
RB - E os altos índices de inadimplência atuais, preocupam?
Cypriano - O aumento da inadimplência, no Bradesco, era esperado porque houve uma mudança no perfil das carteiras. No passado, tínhamos forte concentração nas operações com grandes empresas, com spread mínimo. Essa relação mudou um pouco quando começamos a fazer financiamento massificado com as classes C e D, que tiveram acesso até a cartão de crédito.
Já esperávamos o aumento na inadimplência. O spread dessas carteiras dão suporte ao aumento da inadimplência. A inadimplência cresceu até agosto, estabilizou em setembro e teve um declínio em outubro. Não é uma inadimplência que nos preocupa. A nossa foi de 3,1% para 4,2% nesse último balanço. O aumento da rentabilidade faz jus a esse aumento da carga.
RB - Qual a sua opinião sobre a lei dos 15 minutos?
Cypriano - É curioso. Pelo menos oficialmente, ninguém reclama das filas no cinema e em restaurantes. O problema é que as prefeituras querem editar leis municipais e nós entendemos que quem define a regulação do sistema financeiro é o Banco Central.
Isso serve para evitar que tenhamos leis absurdas, de âmbito municipal que, por exemplo, exigem a presença de obras de artes de artistas regionais nas agências ou cadeiras estofadas em quantidades bem superiores às necessárias.
Hoje existe uma concorrência muito forte entre os bancos e nenhuma instituição deseja que os clientes esperem muito tempo nas filas. Por outro lado, ainda temos aquela cultura inflacionária, com grande concentração dos vencimentos nos primeiros cinco dias do mês.
Esta cultura vem da época em que as pessoas precisavam receber seus recursos com inflação de 80% ao mês e era aquele desespero em relação a uma data específica de recebimento e vencimento de contas.
Assim, o que acontece é uma grande concentração de pessoas nos bancos no início do mês e uma equipe ociosa nos demais dias.
Além disso, 80% das despesas do sistema financeiro está direcionada a salários. Contestamos, portanto, esta Lei, não por querermos atender de qualquer forma. Damos o nosso melhor para oferecer um bom atendimento e para superar a concorrência cada vez mais forte. Se o cliente não for bem atendido, ele vai direto para o concorrente.
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