Varejo e Bancos Fazem Encontro em SP

Caroline Gomes

Representantes do BC, Caixa, Correios, ASCP, Banco Popular, Sebrae e Carrefour realizaram a primeira rodada nacional de debates sobre as sinergias e conflitos no casamento entre os bancos e os estabelecimentos do comércio. O evento é uma promoção de Relatório Bancário com a Associação Comercial de São Paulo. Veja cobertura e baixe a apresentações dos palestrantes.

Líderes dos Dois Setores Apresentam sua Visão

O seminário Varejo & Bancos realizado por Relatório Bancário em parceria com a ACSP, Associação Comercial de São Paulo, reuniu cerca de 120 executivos do setor financeiro, comércio e empresas de TI para discutir as novas formas de parceria entre bancos, financeiras, seguradoras e afins com os estabelecimentos de varejo. O evento contou com alguns expoentes de novos segmentos como o de microcrédito, correspondentes bancários e cooperativas de crédito, tanto do lado do varejo quanto das instituições financeiras.


Luiz Edson Feltrim

Luiz Edson Feltrim, chefe de Organização do Setor Financeiro do Banco Central, abriu o evento afirmando que o ambiente macroeconômico é favorável para área de microfinanças, com a inflação sob controle e o aumento do rendimento médio real da população. Feltrim chamou a atenção para políticas públicas associadas à inclusão bancária da baixa renda, como o bolsa-família, o salário mínimo maior, o crescimento do emprego e o fortalecimento do setor habitacional. Na área financeira, destacou a criação das contas simplificadas, empréstimos com desconto em folha de pagamento, cooperativas de créditos, o Microcrédito e a presença dos correspondentes bancários no país.

Banco de Varejo, ou Varejo?

“O correspondente é um importante instrumento social porque atende a população com baixo IDH, especialmente as mais distantes dos grandes centros e aquelas que ocupam as periferias das grandes metrópoles, além de ser um canal de acesso às instituições financeiras a mercados específicos”, afirma Feltrim. Pelo lado do mercado, o correspondente concorre com os bancos de varejo, reduzindo o custo de prestação de serviços financeiros.

A regulamentação do correspondente ocorreu em 1999, através da Resolução 2.640. Em Dezembro de 2002 não havia mais nenhum município desassistido, ou seja, sem nenhum ponto de atendimento financeiro. No final de 2005 existiam 90,4 mil correspondentes bancários espalhados pelo país que movimentaram quase 2 bilhões de reais.

Segundo Feltrim a expansão dos correspondentes no sistema financeiro brasileiro incentiva a bancarização, além de melhorar a vida das pessoas que vivem em comunidades carentes. Mas ainda requer ajustes. “Há aperfeiçoamentos a fazer, mas o caminho já foi aberto com essa e outras medidas de estímulo feitas em consonância com as diretrizes governamentais”, conclui. Baixe a apresentação de Luiz Edson Feltrim aqui.

Cadastro Positivo


Roberto Haidar

Roberto Haidar, Superintendente de Marketing e Serviços da Associação Comercial de São Paulo, trouxe uma série de documentos para retratar a evolução na concessão de crédito no Brasil, mostrando de que maneira há um movimento em direção à base da pirâmide. Ele discorreu também sobre as mudanças nas técnicas de análise de risco, envolvendo agora aspectos de perfilação de clientes segundo "behaviour scoring model" (ou o comportamento do cliente no mercado) e não mais "scoring" com informações internas ou exclusivamente negativas, como era feito até recentemente. Haidar chamou também a atenção para importância do Cadastro Positivo, reunindo informações contribuídas dos principais agentes do mercado. Baixe a apresentação de Roberto Haidar aqui.

 

 

Crédito Caixa Fácil


Laércio Roberto Lemos de Souza

Laércio Roberto Lemos de Sousa, Superintendente Nacional e responsável pela área de empréstimos a pessoa física e Microfinanças da Caixa Econômica Federal, apontou que as instituições financeiras devem oferecer produtos adequados a realidade do usuário de baixa-renda. “Devemos fazer experimentações, com empréstimos pequeno valor e crescentes, com prazos mais curtos e que ofereçam a oportunidade de renovação”, afirma o executivo.

Ele destacou a iniciativa do Crédito Caixa Fácil, que após 90 dias da abertura da conta simplificada pelo usuário de baixa-renda, realiza uma pesquisa cadastral. Se não for constatada nenhuma restrição, o cliente pode tomar um crédito rotativo que varia de 200 a 600 reais, com juros de 2% ao mês. Desde o seu lançamento em 2003, cerca de 2,2 milhões de clientes já se beneficiaram do serviço. Segundo Lemos, a Caixa identificou problemas com inadimplência e vai passar a oferecer o crédito parcelado, adotando o modelo do carnê, onde o usuário poderá planejar melhor o seu pagamento.

A instituição também disponibiliza, desde 2000, o Microcrédito da Caixa, direcionado a microempreendedores pessoa física de baixa-renda dos setores de economia formal e informal. Nele o empresário pode realizar um financiamento de 250 a cinco mil reais, em até 12 meses, com juros de 3,9% ao mês. Esta modalidade é intermediada por Instituições de Microfinanças, que efetuam a prospecção, fazem o levantamento sócio-econômico, a contratação e a cobrança. O serviço já atendeu 38 mil pessoas. Baixe a apresentação de Laércio de Sousa aqui.

O Negócio da Economia Informal


Carlos Alberto dos Santos

Carlos Alberto dos Santos, gerente da Unidade de Acesso a Serviços Financeiros do Sebrae Nacional, discorreu sobre a relação entre formalidade e informalidade no empreendorismo brasileiro. De acordo com dados do Sebrae, existem 9,1 milhões de empreendimentos na informalidade, contra 4,9 milhões formais. “A informalidade está presente nas classes C e D, o que representa 60% da população. Como motivação para continuar nessa situação estão os altos custos da regularização fiscal e trabalhista, que inviabilizariam a competitividade do microempreendimento”, afirma Carlos. Baixe a apresentação de Carlos Alberto dos Santos aqui.

O balanço do Banco Postal, maior rede de correspondente bancário do país, foi o tema da apresentação de Isabel Cristina Rocha de Moraes, chefe de divisão e normas da Instituição. O Banco mantém convênio exclusivo com o Bradesco, pelo qual as agências dos Correios prestam serviço de correspondente, realizando operações como abertura de contas, saques e depósitos, empréstimos e financiamentos, recebimento de tributos e pagamentos de benefícios do INSS.

Segurança no Banco Postal


Isabel de Moraes

Em seu início, em 2002, o Banco Postal enfrentou problemas como a falta de segurança, a mudança de perfil das agências, custo de equipamentos de alta tecnologia e até a resistência de alguns às mudanças. Mas após algumas implementações em infra-estrutura, reforço da segurança física e patrimonial, além de treinamento adequado, a situação se reverteu.

O Banco Postal está presente nas 5.500 agências próprias do Correio, incluindo 1.740 municípios sem agências bancárias tradicionais. A instituição atende 400 mil pessoas diariamente e já realizou a abertura de mais de cinco milhões de contas. “Desejamos ampliar os serviços prestados, além de expandir o Banco Postal para as agências franqueadas dos Correios”, afirma Isabel. Baixe a apresentação de Isabel de Moraes aqui.

Supermercado Vira Banco


Celso Amâncio

Celso Amâncio, Diretor do Carrefour, falou do lançamento do Banco Carrefour. Com a presença de 5,7 milhões de clientes, carteira de R$ 1,5 bilhão e 141 lojas do Brasil, o Carrefour optou por não dividir a operação financeira com outras instituições financeiras. “Temos que aproveitar nossos 600 mil clientes por dia para ofertar serviços financeiros como forma de alavancar as receitas”, afirma.

O Banco Carrefour foi autorizado a entrar em funcionamento pelo Banco Central em 4 de setembro desde ano e vai oferecer, além do serviço de correspondente bancário, empréstimos pessoais, cartão bandeirado e outras soluções.


Ronaldo dos Santos

Ronaldo dos Santos, Vice-Presidente de Assuntos Financeiros da APAS – Associação Paulista de Supermercados, abordou as vantagens e desvantagens dos serviços financeiros no varejo. “Por um lado aumenta o fluxo no estabelecimento comercial e ainda gera receita. Por outro, cria filas, desconforto aos clientes e despesas maiores que a receita. É preciso encontrar o ponto de equilíbrio”, afirma ele. Baixe a apresentação de Ronaldo dos Santos aqui.

O Seminário Varejo & Bancos incluiu ainda a plenária “Convergência e Conflitos”, tratando das sinergias e contradições no casamento banco/varejo. A plenária contou com a participação dos palestrantes Laércio Roberto Lemos de Sousa, da Caixa Econômica Federal, e Carlos Alberto dos Santos, do Sebrae, além da presença de José Humberto Valentino Vieira, gerente de microcrédito do Banco Popular e Vanda Sotero, diretora da Witrisk.

Banco Popular Emociona

José Humberto Valentino
José Humberto Valentino

O debate foi precedido por uma apresentação de José Humberto Valentino Vieira, gerente de microcrédito do Banco Popular do Brasil. Com uma exposição apoiada em casos concretos e recursos de vídeo, Valentino Vieira chegou a emocionar a platéia ao mostrar uma reportagem com personagens reais de municípios carentes que tiveram sua história de vida impactada pelo uso do cartão do BPB.

Não obstante a componente “social”, o diretor do Banco Popular enfatizou a importância do microcrédito como parte de um plano de negócios que tem o lucro como base e não como coadjuvante.

Segundo ele, é importante que o mercado se atenha a norma do BC de não constituir correspondentes cujo negócio fim seja a operação financeira. “O estabelecimento comercial que se torna uma pseudo-instituição bancária acaba perdendo o foco de varejista e dificilmente terá condições de competitividade e eficiência apenas com as operações de correspondente. A margem de lucro com a atividade de correspondente é um reforço para o varejo e não seu negócio fim”, comenta.  Baixe a apresentação de José Humberto Valentino Vieira aqui.

Wanda Sotero
Wanda Sotero

Carlos Alberto dos Santos, do Sebrae, salientou a diferença entre concessão de crédito e política social. Para ele os bancos devem conceder crédito para construir uma nova carteira de clientes e preparar futuros clientes. “Não se trata de política social, mesmo que exista subsídios. É política industrial. O microcrédito acaba tendo esse viés, o que não bom, pois acaba gerando a inadimplência”, conclui.  

A plenária “Convergências & Conflitos” teve como mediadora a diretora da Witrisk, Wanda Sotero. A Witrisk é uma das líderes nacionais em ferramentas para análise de risco de crédito.