LEGADO & EVOLUÇÃO 2007

SEMINÁRIO REAFIRMOU IMPASSE ENTRE MAINFRAME E MIGRAÇÃO

Usuários e indústria concordam com a exigência de flexibilização, mas há estratégias divergentes quanto à permanência do modelo mainframe ou a adoção de novas plataformas, como já ocorreu na Bovespa

O difícil equacionamento entre a necessidade de constante evolução e a preservação dos investimentos já realizados é apenas um dos aspectos da discussão sobre o papel e o destino dos legados de tecnologia.

No atual cenário tecnológico, a discussão abrange ainda as novas modalidades de administração e aquisição de ativos de TI, passando pela questão dos modelos de “sourcing” e pelos altos riscos envolvidos na inovação ou, ao contrário, na estagnação da infra-estrutura.

Em sua terceira e mais bem sucedida versão, o Seminário Anual Legado & Evolução nas Instituições Financeiras, apresentou uma invejável amostragem das visões do moderno gestor de TI sobre a insistente contradição em que os grandes usuários de tecnologia vêm se debatendo há décadas.

Entre os palestrantes, Relatório Bancário reuniu representantes de importantes players de TIC, como HP, Ação Soluções, DTS e Consist, ao lado de gigantescos usuários como SERPRO, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, e também da Forrester Research.

BB: OPÇÃO PELO EQUILÍBRIO

Glória Guimarães
Glória Guimarães - Diretora de Tecnologia do Banco do Brasil
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Para a diretora de TI do Banco do Brasil, Glória Guimarães, a  existência do impasse sobre “evoluir” ou “manter” pode existir apenas sob um certo ponto de vista teórico.

Na prática, assinala a diretora, mesmo sendo cada vez mais vertiginosa, a inovação ocorre sempre sobre uma base pré-existente, e, à medida que é instaurado, o modelo inovador passa a integrar o chamado legado, o que nos coloca diante algo como uma rosca sem fim.
Sob este ponto de vista, Glória Guimarães analisa que o legado não se opõe frontalmente à evolução e nem deve ser associado a significados depreciativos.

“O legado pode, de fato, ser um diferencial competitivo, se estiver agregando valor aos negócios e enquanto for possível sua aplicação. Ele realmente se transforma em fardo quando se torna um todo monolítico e incapaz de se incorporar na estratégia evolutiva”, salienta Glória.

À frente de um dos maiores legados de tecnologia da América Latina, Glória Guimarães é responsável pela evolução constante de uma estrutura de mainframe de 109 Mil MIPS, com capacidade de disco de 487 Terabytes e 4,0 Petabytes de dados armazenados em cartucho. Só em seu inventário de programas, o BB contabiliza 411 mil entidades, além de 945 mil aplicativos e 122 milhões de linhas de código.

“É preciso um extremo cuidado para que estes ativos não se depreciem, junto com obsolescência técnica, mas também é preciso ter em conta o seu altíssimo valor diante de cada inovação adotada. Entre o mundo mainframe  e o web-top, por exemplo, o BB opta por um modelo em que há integração entre os dois mundos visando, de um lado, a segurança, a potência e o controle centralizado de um; com a flexibilidade, liberdade de design e espaço criativo do outro”, explica a diretora.

SERPRO QUER ALTERNATIVAS AO MAINFRAME

Sérgio Cangiano
Sérgio Cangiano - Diretor de Tecnologia do SERPRO
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Com uma visão semelhante à da diretora do Banco do Brasil, mas com respostas tecnológicas distintas, o diretor de tecnologia do SERPRO, Antônio Sérgio Borba Cangiano, traçou um modelo de quadrantes para o legado tecnológico, no qual as duas vertentes em questão são a receita para o negócio versus o seu custo.

No primeiro quadrante, onde se situam o baixo custo e a baixa receita, o modelo de Cangiano propõe a “comoditização”, com vistas ao ganho de escala. Por sua vez, para o quadrante imediatamente acima, onde o baixo custo e a alta receita se encontram, Cangiano propõe o investimento no legado, visando sua elevação à condição de diferencial.

A substituição do legado, visando sua maior contribuição para o negócio, acontece no quadrante superior à direta, onde há alto custo de investimento compensado por alta receita. Por sua vez, o quadrante abaixo à direita, onde há alto custo associado à baixa contribuição, a proposta do modelo do SERPRO é simplesmente eliminar. Ou seja, buscar a desativação no tempo mais rápido possível ou encontrar compensações tecnológicas à altura.
Sérgio Cangiano

“Nossa preocupação cotidiana é manter o legado sob um nível de gestão tecnológica rigorosa em todo os aspectos: sua adequação ao mercado, sua permanente atualização, seu custo otimizado e sua interoperabilidade”, afirma ele.
Como exemplo da filosofia de atuação do SERPRO, Cangiano menciona a adoção do modelo WLC (Workload Licence Charge) para a aquisição de software de mainframe, iniciada há cerca de quatro anos. “Só com esta nova forma de visão do ativo ‘software para mainframe’, conseguimos uma economia da ordem de R$ 52, 6 milhões em um período de  três anos e sem qualquer prejuízo para a operação”, assinala Cangiano.

O Executivo do SERPRO enumerou, entretanto, uma série de desvantagens para o modelo mainframe, como o alto custo da escalabilidade, a baixa eficiência no ambiente web, o alto custo de software e hardware, além da arquitetura proprietária.
Sem abrir mão dos mainframes num prazo imediato, o SERPRO, avisa Cangiano, já considera seriamente a migração dos sistemas aplicativos Natural (que operam em mainframe) para plataformas SISC ou Itanium, que na avaliação da empresa, não trariam grandes perturbações para os usuários no período migratório.

O SERPRO vem investindo também em Linux, Java e aplicações de software livre. Só com o uso de código aberto, a economia anual do órgão está na casa dos R$ 10 milhões, fora outros R$ 8,3 milhões economizados em tópicos como treinamento, suporte, consultoria e hardware.

MODELO SOA NA MIRA DA CAIXA

Idamar Ferreira
Idamar Ferreira, gerente de sustentação e disponibilidade de TI da Caixa
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Para a Caixa Econômica Federal, a arquitetura corporativa deve comportar uma abordagem de negócio em perfeito alinhamento com uma abordagem de tecnologia.

Enquanto a visão do negócio compreende uma camada estratégica - na qual se deposita todo o road-map e organogramas de relacionamento do banco – além da camada de processos focados no negócio-fim; a parte de tecnologia se bifurca em aplicações – com os modelo funcionais e aplicativos – e em infra-estrutura, onde estão representados servidores, bases de dados, redes, roteadores etc.

Segundo Idamar Ferreira, gerente de sustentação e disponibilidade de TI da Caixa, a administração e transformação do legado, deve considerar a harmonia entre as duas visões, tendo como princípios as premissas de negócio, como satisfação do cliente, liderança em inovação e os indicadores financeiros.

“A política de evolução não deve ser uma imposição pura e simples do ambiente tecnológico, mas deve resultar de uma visão estratégica do negócio. Devemos, assim, considerar uma gestão de sistemas que abranja a avaliação do portfolio; a identificação de oportunidades de transformação; a seleção de transformações adequadas e ótimas e; finalmente, a execução da transformação”.
Idamar Ferreira

Ainda segundo Idamar, a Caixa caminha para um modelo de arquitetura que abole o foco atrelado à abordagem de sistemas – um paradigma típico dos grandes proprietários de legado, com grande alicerce assentado sobre os sistemas históricos da TI.

O novo modelo em perspectiva, explica Idamar, alinha-se à nova tendência da arquitetura orientada a serviços (SOA). A nova arquitetura é descrita por um conjunto vertical de interfaces de relacionamento com o cliente, conectadas a uma infra-estrutura multi-canal que acessa bases de dados dispostas por abordagem (como a matriz “conta-corrente”, abrangendo sistemas de depósito e saldos, por exemplo) e interagindo com um barramento de serviços de retaguarda tecnológica, como automação bancária, aplicações de empréstimo, fidelização, arrecadação etc.

 

SOA É CONSENSO NO PAÍS, DIZ FORRESTER

Edson Fregni
Edson Fregni - Ex-CIO do ABN Amro Bank e um dos maiores especialistas em TI do País.

FORRESTER ANALISA MODELOS DO ITAÚ E BRADESCO

Durante o Seminário Legado & Evolução, o diretor da Forrester Research apresentou um estudo situando o Bradesco e o Itaú como dois pólos paradigmáticos da estratégia de inovação e administração do legado entre as instituições financeiras.

O estudo serve como base exemplar para uma visão do cenário de decisão dos bancos no País desenvolvido pela Forrester. No diagnóstico da plataforma bancária, Edson Fregni destaca a existência de aplicações centrais (sistemas de missão crítica de alto desempenho e elevados volumes de transação ) e aplicações satélite (módulos ou aplicações secundárias), além da infra-estrutura de software básico, middleware etc.

Ao avaliar este cenário, o diretor da Forrester aponta que o legados dos bancos de varejo está próximo do esgotamento. As aplicações satélite, próximas da exaustão, limitam o time-to-market para novos produtos. Por outro lado as aplicações centrais clássicas se apresentam em boa forma, por terem sofrido investimento constante nos últimos 30 ou 40 anos. A propósito, a Forresster identifica entre os gestores dos bancos um impasse, sendo que parte deles confia no potencial de futuro de legado e outros se angustiam diante das dificuldades de manobrar mudanças nestas estruturas grandes e complexas.

Seja como for, verifica-se  no Brasil a baixa probabilidade de mudanças muito substanciais nas plataformas bancárias e afirma-se uma tendência predominantemente conservadora na gestão de ativos de TI do setor.

As exceções, segundo Edson Fregni, são o Bradesco – com seu projeto TI Melhoriais, inciado em 2003 com um orçamento da ordem de US$ 560 milhões – e o Santander, sendo que este último movido muito mais pela necessidade de alinhamento global.

Assumindo o TI Melhoria do Bradesco como um exemplo de intervenção mais radical sobre o legado de TI por parte de um grande banco, Edson Fregni fez uma comparação entre esta estratégia inovativa e o paradigma adotado pelo Itaú, cujo modelo centralizado de TI, egresso da década de 70, continua e prosseguirá sendo a base das evoluções de TI e de negócios da instituição.

Em sua conclusão, Edson Fregni avalia que a iniciativa do Bradesco poderá contagiar o setor bancário como um todo no País, desencadeando uma corrida por inovação tecnológica que afetará todos os players do setor e mais a indústria de TIC  de dedicada aos bancos.

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A exemplo da Caixa Econômica Federal, todos os bancos brasileiros estão propensos a implantar a abordagem SOA, se já não estiverem em fase de implantação deste modelo. A afirmação é do diretor da Forrester Research, Edson Fregni, uma das maiores autoridades em tecnologia da informação país, durante sua palestra no Seminário Legado & Evolução 2007.
Fregni destaca, no entanto, que há uma relativa aversão à inovação rápida, e que a tendência, entre as instituições, é administrar com muita cautela qualquer intervenção substancial sobre o legado de tecnologia.

Aliás, segundo o especialista, o modelo SOA se mostra com um ótimo potencial para resolver alguns dos impasses mais críticos dos processos evolutivos dos bancos, inclusive por permitir diferentes graus de implementação.

 

 

Edson Fregni

Entre as dificuldades que SOA poderá ajudar a contornar está o alto custo das evoluções e o nível de risco envolvido, ambos gerando constantes movimentos protelatórios no processo decisório, mesmo quando se sabe que a evolução é necessária. 

“O dolorido processo decisório dos bancos, quando se fala em inovação tecnológica é explicado em parte por experiências negativas do passado”, explica Edson Fregni. Segundo ele, a adoção de pacotes de mercado para os sistemas de core dos bancos, na década passada, gerou um trauma generalizado que pesa na consciência dos gestores. “Isto ajuda, em parte, a entender a preferência dos bancos pela evolução paulatina” comenta o executivo.(Veja comparativo entre estratégias do Bradesco e Itaú no box ao lado)